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Dois enes

E nem parece que semana passada fez onze anos que não tá mais aqui. Eu ainda lembro do ovo quente com sal, que comia na colherinha de chá, do marrom glacê que vinha dentro de uma lata, das Amanditas no fundo do armário, do Nescafé com leite na xícara vermelha, que tinha até a marca marrom do pó, das moedas guardadas em potinhos de geléia na primeira gaveta do armário do meio. Lembro do doce do bar do japonês, de assistir A Praça é Nossa nos sábados à noite, de me deixar brincar na rua escondida dos meus pais. Da bolsa de bolinhas, dos vestidos floridos, do cabelo preto e fininho, dos olhos bonitos. Lembro de me ensinar a costurar roupinhas pras Barbies, de me mostrar que na roseira do jardim tinham espinhos, de me deixar correr pela casa fazendo barulho no assoalho.
Meus dois enes são seus. Minha mania de colocar a mão no lábio o tempo todo é sua. Meu jeito fechado, de não falar nada pra ninguém, é inteiro seu.

Achei que depois de tanto tempo, eu não ia lembrar disso tudo. Achei que nem saudade direito eu teria. Me enganei.

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Planos

Um dia eu vou:
– fazer um curso de gastronomia,
– ser editora numa revista,
– ter uma casa na praia,
– saber dirigir bem,
– aprender a tocar bateria,
– comprar uma gaita,
– ser paciente e bem humorada,
– ter um bar,
– parar de ter medo de escuro,
– falar menos “não” pras pessoas,
– não passar tanta vergonha nas festas,
– não brigar por bobagem,
– parar de tomar cerveja e ter uma barriga lisinha.

Pena que meus planos raramente dão certo. Espero que isso mude!

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Feels like home.

Ando sentindo saudade demais de casa. E isso inclui mãe, pai, irmão mais novo que me ama muito mas ainda não sabe, cachorra, vó, tio, tia… tudo. Mas não só disso, acho que eu sinto saudade de quando eu ficava lá o tempo todo, perto de todo mundo. De pular em cima do meu irmão, de pedir pra ele aprender alguma música nova no violão. Saudade de ouvir as piadas da minha mãe e demorar horas pra entender. De ouvir meu pai recitar “Batatinha quando nasce” na sua versão em inglês, que não faz sentido nenhum. Saudade de quando eu via meus amigos de “desde sempre” todos os dias. De comer Fofy vendo desenho, e ir narrando o que eu ia fazer: – “agora eu vou comer a perna, e você, Bruna?” – “ah, eu também!”. Saudade da Loira, da Luna, da Bixa, da Cê… das minhas meninas que agora moram longe e que não vejo nunca. De quando minha mãe me levava pra escola, pro inglês e pra casa ver tv. De quando eu não precisava pensar “ai meu Deus, o que é que eu vou fazer da minha vida agora?”.

Não quero crescer. Posso ser criança pra sempre?

E pra mim faz sentido, esse post combina com essa música: Newton Faulkner – Feels like home

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Das coisas que eu não sei.

Não sei como escrever pros outros. Não sei como ser lida. Não sei se alguém sabe ou consegue me ler. Acho que certas pessoas são feitas para serem lidas, outras não. Se eu sou uma delas? Não sei. Mas não custa nada tentar.

O que pra mim faz sentido, como é normal, pra muita gente não faz. Mas o problema é que não sei  me expressar muito bem, não sei explicar como as coisas se encaixam na minha cabeça. Mas, de novo, não custa nada tentar.

Então aqui vou eu, tentar me explicar, me ler e me entender.

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