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Tempo, tempo, mano velho

– Vem cá, Fefê, meu nenezão.
– Mas Nani, eu tenho 5 anos!
– É? Você tá velho então!
– Não tô! Você que é velha. Quantos anos você tem?
– Vinte. Eu já vivi várias vezes cinco anos.
– Uaaaaau! Vinte é dois, zero e zero, não é?
– Ô, menos aí! Tô velha mas nem tanto. Agora vem aqui pra eu te cutucar.
– Não vou, você tá usando a minha colher sem pedir.
– Mas quando eu era pequena, ela era minha. Eu não posso usar mais só porque cresci um pouco?
– Não, adulto não pode usar colher de criança!

Mal sabe ele que de adulto não tenho quase nada.
E não fez sentido, mas essa música tava na minha cabeça.

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Dois enes

E nem parece que semana passada fez onze anos que não tá mais aqui. Eu ainda lembro do ovo quente com sal, que comia na colherinha de chá, do marrom glacê que vinha dentro de uma lata, das Amanditas no fundo do armário, do Nescafé com leite na xícara vermelha, que tinha até a marca marrom do pó, das moedas guardadas em potinhos de geléia na primeira gaveta do armário do meio. Lembro do doce do bar do japonês, de assistir A Praça é Nossa nos sábados à noite, de me deixar brincar na rua escondida dos meus pais. Da bolsa de bolinhas, dos vestidos floridos, do cabelo preto e fininho, dos olhos bonitos. Lembro de me ensinar a costurar roupinhas pras Barbies, de me mostrar que na roseira do jardim tinham espinhos, de me deixar correr pela casa fazendo barulho no assoalho.
Meus dois enes são seus. Minha mania de colocar a mão no lábio o tempo todo é sua. Meu jeito fechado, de não falar nada pra ninguém, é inteiro seu.

Achei que depois de tanto tempo, eu não ia lembrar disso tudo. Achei que nem saudade direito eu teria. Me enganei.

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Feels like home.

Ando sentindo saudade demais de casa. E isso inclui mãe, pai, irmão mais novo que me ama muito mas ainda não sabe, cachorra, vó, tio, tia… tudo. Mas não só disso, acho que eu sinto saudade de quando eu ficava lá o tempo todo, perto de todo mundo. De pular em cima do meu irmão, de pedir pra ele aprender alguma música nova no violão. Saudade de ouvir as piadas da minha mãe e demorar horas pra entender. De ouvir meu pai recitar “Batatinha quando nasce” na sua versão em inglês, que não faz sentido nenhum. Saudade de quando eu via meus amigos de “desde sempre” todos os dias. De comer Fofy vendo desenho, e ir narrando o que eu ia fazer: – “agora eu vou comer a perna, e você, Bruna?” – “ah, eu também!”. Saudade da Loira, da Luna, da Bixa, da Cê… das minhas meninas que agora moram longe e que não vejo nunca. De quando minha mãe me levava pra escola, pro inglês e pra casa ver tv. De quando eu não precisava pensar “ai meu Deus, o que é que eu vou fazer da minha vida agora?”.

Não quero crescer. Posso ser criança pra sempre?

E pra mim faz sentido, esse post combina com essa música: Newton Faulkner – Feels like home

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Energia elétrica

– Mãe, mas e agora? Preciso ir ao banheiro e tá sem força!
– E daí? Leva uma vela.
– Mas… a descarga vai funcionar?

E foi nessa hora que minha mãe viu como eu não sou muito inteligente.

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